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Maré alta em Santos: quando o oceano sobe à cidade

Ondas invadindo o calçadão da orla de Santos

Na manhã em que a maré bateu 1,42 metro, o calçadão de Santos virou rio. Moradores tiraram os sapatos antes de cruzar a orla; carros desviaram; e o mar, como sempre, não pediu licença.

Estive na Baixada Santista durante três dias de ressaca combinada com maré de sizígia. Não é a primeira vez que Santos enfrenta isso — a cidade foi construída literalmente sobre o mangue —, mas a frequência dos eventos extremos preocupa quem mora no entorno da praia.

A orla como linha de frente

Registrei Dona Célia, 67 anos, atravessando a Avenida Bartolomeu de Gusmão com sacolas de mercado e chinelo na mão. Ela mora no segundo andar de um prédio da Ponta da Praia há quarenta anos. "Antigamente isso acontecia duas vezes no ano. Agora é todo mês que a gente olha a previsão com medo", contou.

O calçadão de concreto — símbolo da cidade — funciona como barreira, mas não resolve. Quando a ressaca vem do sudeste com força, a água ultrapassa o muro, invade a ciclovia e empurra detritos para o asfalto. Fotografei uma bicicleta abandonada meio submersa, cadeira de praia flutuando, e um cachorro latindo para as ondas como se pudesse intimidá-las.

"A gente não discute com o mar. Aprende a subir as coisas pro segundo andar."
Reflexo de prédios na água da maré no calçadão
Água da maré reflete a orla de Santos em dia de ressaca. Junho de 2026.

O que dizem os números

Conversei com técnicos do porto e pesquisadores da Universidade de São Paulo que monitoram o nível do mar na região. Os dados mostram aumento gradual nas marés máximas das últimas décadas, agravado por ressacas mais intensas e subsídência do solo em áreas aterradas sobre mangue.

Para quem mora na orla, porém, estatística é abstrata. O que importa é a marca na parede do prédio — a altura que a água atingiu na última enchente — e o vizinho que já mudou de apartamento duas vezes.

Entre adaptação e abandono

Na Gamboa, bairro histórico próximo ao centro, vi moradores instalando barreiras improvisadas com sacos de areia. Uma associação de moradores distribuiu folhetos com orientações: não estacionar na orla em dias de maré alta, guardar documentos em altura, manter contato com vizinhos idosos.

Alguns comerciantes da orla já fecham em dias previsíveis de maré extrema. Outros insistem — a gelateria da esquina abriu mesmo com água na porta, e o dono serviu sorvete para quem passou de galocha.

Quando a maré baixou, no fim da tarde, o calçadão voltou a ser calçadão. Jovens correram na ciclovia, casais caminharam de mãos dadas. A cidade se recompôs com a rapidez de quem aprendeu a conviver com um vizinho imprevisível.

Atualizado em Jun 12, 2026