Pescadores

Pescadores do litoral baiano: a maré que define o dia

Jangadas ancoradas no cais ao amanhecer, litoral baiano

Às quatro e meia da manhã, o cais de Itacaré ainda não tem turista. Só o cheiro de diesel misturado com sal e homens que conhecem cada pedra escorregadia da rampa.

Passei uma semana acompanhando a Colônia Z-12, grupo de pescadores artesanais que opera entre Itacaré e Ilhéus. O que mais me impressionou não foi a pesca em si — embora ver a rede subir com siri e camarão no crepúsculo seja hipnótico —, mas a precisão com que esses homens leem o mar sem abrir aplicativo nenhum.

O relógio da maré

Seu Geraldo, 58 anos, pesca desde os quatorze. Quando perguntei que horas saíam no dia seguinte, ele olhou para o céu e disse: "Quando a água baixar o suficiente pra jangada não bater no fundo." A maré gráfica está na cabeça dele, não no celular.

Fotografei o momento em que a tripulação empurrou três jangadas para fora da areia úmida. O esforço é coletivo — um homem na proa, dois nas laterais, outro verificando a amarração do motor de rabeta. Em vinte minutos, o cais ficou vazio. Só restaram marcas de casco na areia e gaivotas disputando restos de isca.

"O mar não espera. Você aprende a chegar antes dele ou passa fome."
Pescador consertando rede no cais após o retorno
Seu Geraldo revisa a rede depois de uma saída curta. Itacaré, junho de 2026.

Entre o turismo e a tradição

Itacaré mudou muito nas últimas duas décadas. Resorts, escolas de surf, restaurantes com fila. Mas o cais das cinco da manhã pertence a outro tempo. Lá, o preço do quilo de camarão ainda é discutido em voz baixa, e os filhos dos pescadores enfrentam uma escolha difícil: herdar a jangada ou buscar emprego em hotel.

Conversei com Diego, 24 anos, que divide a semana entre recepção num pousada e pesca com o pai nos fins de semana. "Ganho mais no hotel, mas sinto falta do mar nos outros dias", disse. Ele representa uma geração que não abandona a tradição, mas não consegue viver só dela.

A pesca artesanal no litoral baiano enfrenta pressão de vários lados: redes de arrasto ilegais, poluição de rios que deságuam no mar, e temporadas em que o peixe simplesmente não aparece. Os pescadores da Z-12 mantêm um caderno de ocorrências — data, espécie, quantidade — que enviam à colônia todo mês. É ciência cidadã antes de existir esse nome.

Luz de fim de tarde

Voltei ao cais no fim da tarde, quando as jangadas retornam. A luz dourada transforma tudo — o rosto cansado, a água escorrendo da rede, o silhueta dos coqueiros ao fundo. É o horário que os fotógrafos amam e os pescadores temem, porque significa contar o que a maré deixou ou levou.

Naquele dia, a colheita foi modesta. Mesmo assim, houve risada na rampa. Um dos rapazes contou uma história de tubarão que ninguém acreditou. Seu Geraldo limpou o facão na areia e disse, quase para si: "Amanhã a maré muda."

Atualizado em Jun 12, 2026